2016/03/17
2016/03/16
2016/03/15
2016/03/03
DORES SEM NOME
Mais um excelente “Escrito” do meu Colega e Amigo A.
Maioto.
Este trabalho é um exemplo daquilo que aconteceu a
milhares de colegas nossos, durante o período da guerra colonial.
DORES SEM NOME
Em mim a noite mais
escura de toda minha vida. Todo meu ser foi arrastado para uma escuridão de
sombras sinistras como se alguém, maquiavelicamente pérfido, tivesse queimado todo
meu corpo de luto. Atónito, perplexo, no meu triste enlouquecer as dores nem me
permitiam sequer chorar, que seria um bálsamo, e os pensamentos, esses, ziguezagueavam
no fundo do mundo que afinal era tão só a enormidade desfigurada da minha alma!
Maquinalmente deixei
escorregar o corpo, pesado como uma Berliet, para o chão barrento e encostei-me
ao embondeiro enorme, de ramos fortes e tronco corpulento, alargando a vista
pelo acaso onde o sol se desvanecia a cada segundo…
Então tu chegaste. Silencioso,
sem proferir uma letra sequer ao ver-me assim prostrado, e sentaste-te a meu
lado, ficando depois mudo a observar o por do sol por cima das copas das
árvores. Para nós, naquela tarde qualquer dum dia sem nome, naqueles instantes
o tempo não existia, e se existisse nós éramos os senhores absolutos para
podermos destrui-lo ou compô-lo a nosso bel-prazer. A dor dilacerava-me as
entranhas…
Sem te olhar
estendi-te o aerograma que segurava nas mãos, e pelo canto do olho acompanhei
sem querer, desinteressadamente, o teu gesto em abri-lo com calma já prevendo o
pior e depois a leitura. Leste-o duas vezes. Depois, com a mesma calma com que
o abriste, fechaste-o com um carinho comovente como se duma relíquia se
tratasse, pousando-o depois na mão que eu estendi.
Nada disseste. Nem uma
letra sequer, nem um som! O sol já se tinha ido embora deixando em sua
substituição os primeiros tons da noite. Pareceu-me, na solidão do tempo em que
mergulhei, que minhas dores nunca mais iriam sarar, e a cada segundo que
passava elas aumentavam de tamanho. E uma lágrima, e várias, e muitas, sustidas
até aí a tanto custo, finalmente irromperam de meus olhos molhando a camisa do
camuflado que envergava. E chorei como nunca tinha chorado, o corpo tremente e
a alma incapaz de aguentar o sofrimento. Foi então que, num segundo de lucidez,
ouvi teu choro. Tu choravas comigo. Tu, meu amigo Carlos, também choravas minhas
dores!
Pareceu-me que,
aniquilado pelo desgosto, o tempo passou por nós velozmente, e que tempos sem
rosto tinham passado desde que Caíra a primeira lágrima. Trazida pela brisa, melifluamente,
qual nota tirada dum violino, no lusco-fusco da noite tu simplesmente disseste
quase em segredo:
- Sei o que é isso. Também perdi o meu dois meses antes do embarque.
No aldeamento, sentados junto às palhotas,
os aldeãos, arrancados de suas terras e centralizados na aldeia para maior
controle dos movimentos dos turras, ocupavam-se do jantar, enquanto a noite ia escurando
cada vez mais. E num sopro de novo tu:
- Como lamento perderes teu pai! Não
sei que dizer! Não sei…
Acreditei em ti, tinha a certeza
absoluta que se tivesses esse poder nas mãos o usavas para curar minha tristeza!
Deste uma palmada suave no meu braço, de seguida levantaste-te e estendeste a
mão para me ajudar a erguer. E, quando eu já estava de pé, olhaste para mim e de
repente, num gesto espontâneo, estreitaste-me nos braços dum jeito que nunca
ninguém me tinha abraçado, naquela linha tão ténue onde se escreve a amizade e
se sente a fraternidade. Começaste a caminhar e eu, sem me dar conta, segui-te,
e teus passos conduziram-nos até à cantina do indiano Shami situada ali a uns duzentos
metros.
Depois o tempo deixou de
existir entre as palavras e as estrelas refulgentes. Na noite e no calor da
cerveja, entre lágrimas e o cheiro do capim, despejei toda minha dor. Falei de
meu pai e das memórias que guardava dele, falei do homem simples e bom que ele
era, evoquei seu nome e seu humor. Soltei a alma e as recordações!
E tu, meu amigo, ouviste, ouviste atentamente
com os olhos indesmentivelmente molhados de quem tinha chorado. Ambos sabíamos bem
na pele a perda dum pai! Falámos de muita coisa menos da guerra que éramos obrigados
a viver todos os dias. Sobre a nossa guerra nem uma palavra como se ela nem
fizesse parte de nossas vidas.
Naquela noite qualquer dum tempo
qualquer, eu aprendi contigo o significado da verdadeira amizade e a sabedoria de
saber ouvir!
Naquela noite, na cantina descaiada do
indiano Shami, tu foste meu irmão!
P. Coura, 26/01/2015
2016/03/01
2016/02/03
2016/02/01
Moto Clube do Mucifal
Foi num ambiente festivo de grande convívio e
camaradagem que o Moto Clube do Mucifal assinalou no passado sábado dia 30, na
União Mucifalense, o seu 17.º aniversário.
Numa festa que foi aberta a toda a comunidade Motar e não só, houve animação musical a cargo do Grupo Musical Ténis Bar.
Numa festa que foi aberta a toda a comunidade Motar e não só, houve animação musical a cargo do Grupo Musical Ténis Bar.
2016/01/29
Visita da Imagem Peregrina
Colares
recebeu hoje pelas 12h15, a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima
às Dioceses Portuguesas.
Fernando Pessoa na Tuna E.U.Penedense
A Eclipse Arte irá apresentar na Tuna Euterpe União Penedense "O Segundo Raio de Luz de Luar"
às 21h30 do dia
30 de Janeiro de 2016.
Espetáculo sobre a vida e obra de Fernando Pessoa
Espetáculo sobre a vida e obra de Fernando Pessoa
2016/01/27
Associação de Reformados do Mucifal
Associação de Reformados do Mucifal
No
passado sábado, dia 23, a Associação de Reformados do Mucifal
comemorou o seu 15º aniversário.
Na sua intervenção a Presidente referiu que têm sido quinze anos de
luta, de incertezas, incompreensões,
de dias maus, mas também de dias muito bons.
Tal como o passado sábado, em que com casa cheia de associados e
amigos, e com a presença dos Vereadores da C.M.Sintra Drs. Eduardo
Quinta Nova e Marco Almeida, do Presidente da Junta de Freguesia de
Colares e representantes das instituições amigam, Banda dos Bombeiros
V. Colares, Bombeiros V. Colares, Núcleo Sportinguista de Almoçageme,
Sport União Colarense e União Mucifalense, deram o seu abraço amigo
àquela Associação.
A Direcção apesar das adversidades, continua a dar o seu melhor para
poder levar por diante os objectivos traçados ao longo destes quinze
anos.
O Grupo Coral fez uma brilhante actuação cantando temas bem conhecidos
dos presentes, sob a regência do maestro Paulo Taful e os músicos Hugo
Janota e Graça Pedroso.
Mas os quinze anos que agora se cumprem ficaram enriquecidos neste
dia, ao ser evocado numa singela e comovida homenagem póstuma, o
associado nº 66, Raúl Serôdio Martins.
Com a colaboração do Grupo Coral da Associação, da filha, neta e
primos cantando temas a que o homenageado deu voz, em peças de teatro
que alcançaram muito êxito e lhe valeram o reconhecimento do Festival
de Teatro da C.M.Sintra, como Melhor Actor, a festa continuou com
leituras de excertos de algumas peças por ele desempenhadas. Foi feita
uma evocação do seu percurso familiar, associativo, musical e teatral,
pelo amigo de longa data e homem de teatro Fernando Louro...
Foram projectadas inúmeras fotografias do Raúl nas diversas
actividades em que colaborou ao longo da sua vida.
Por fim, um animado lanche e os tradicionais "parabéns", cantados a
muitas vozes.
comemorou o seu 15º aniversário.
Na sua intervenção a Presidente referiu que têm sido quinze anos de
luta, de incertezas, incompreensões,
de dias maus, mas também de dias muito bons.
Tal como o passado sábado, em que com casa cheia de associados e
amigos, e com a presença dos Vereadores da C.M.Sintra Drs. Eduardo
Quinta Nova e Marco Almeida, do Presidente da Junta de Freguesia de
Colares e representantes das instituições amigam, Banda dos Bombeiros
V. Colares, Bombeiros V. Colares, Núcleo Sportinguista de Almoçageme,
Sport União Colarense e União Mucifalense, deram o seu abraço amigo
àquela Associação.
A Direcção apesar das adversidades, continua a dar o seu melhor para
poder levar por diante os objectivos traçados ao longo destes quinze
anos.
O Grupo Coral fez uma brilhante actuação cantando temas bem conhecidos
dos presentes, sob a regência do maestro Paulo Taful e os músicos Hugo
Janota e Graça Pedroso.
Mas os quinze anos que agora se cumprem ficaram enriquecidos neste
dia, ao ser evocado numa singela e comovida homenagem póstuma, o
associado nº 66, Raúl Serôdio Martins.
Com a colaboração do Grupo Coral da Associação, da filha, neta e
primos cantando temas a que o homenageado deu voz, em peças de teatro
que alcançaram muito êxito e lhe valeram o reconhecimento do Festival
de Teatro da C.M.Sintra, como Melhor Actor, a festa continuou com
leituras de excertos de algumas peças por ele desempenhadas. Foi feita
uma evocação do seu percurso familiar, associativo, musical e teatral,
pelo amigo de longa data e homem de teatro Fernando Louro...
Foram projectadas inúmeras fotografias do Raúl nas diversas
actividades em que colaborou ao longo da sua vida.
Por fim, um animado lanche e os tradicionais "parabéns", cantados a
muitas vozes.
2016/01/26
2016/01/25
B.V. Almoçageme - Andebol
Realizou-se
ontem Domingo no pavilhão dos B.V. Almoçageme, mais uma jornada a contar para o
Campeonato Nacional de Andebol na categoria de Iniciados.
A nossa equipa (BVA)
recebeu o Passos Manuel, equipa mais equilibrada e mais experiente, que a tornou numa equipa teoricamente superior. Apesar
dessa superioridade a nossa equipa nunca baixou os braços e lutou de igual com
o Passos Manuel, nunca voltando a cara ao adversário.
Em muitos lances
já se nota o excelente trabalho que o treinador Tiago Rego tem vindo a desenvolver
com os nossos jovens.
Este jogo teve
algumas curiosidades:
Alexandre
Grilo, Pedro Ferreira e Diogo Relvas, estrearam-se a marcar pelos BVA com um 1
cada. Miguel Pimenta bateu o seu record pessoal com 6 golos. Marcaram ainda
para os BVA José Santos 14 golos e Francisco Santos 4 golos.
2016/01/22
Sport União Colarense
Integrado
nas comemorações do 83º Aniversario o Sport União Colarense vai promover um
concerto no dia 23 de Janeiro pelas 21h30.
O
concerto terá lugar na sede do Colarense e será dirigido pelo Maestro Fernando
Moreira.
2016/01/20
2016/01/19
2016/01/07
S.R.M. Almoçageme/124º Aniversário
2015/12/21
UM BELO PRESENTE DE NATAL / POR ALFREDO MAIOTO
UM BELO PRESENTE DE NATAL.
De repente, saído do
meio do silvado, apareceu à minha frente. Ao ver-me assustou-se e ficou a olhar
para mim debatendo-se na angústia entre o fugir ou ficar. E então, magicamente,
vi aqueles dois olhitos mais belos e doces que jamais irei esquecer! Que doces
e suplicantes, meu Deus! Como nunca vi!
Olhámo-nos por segundos, tempo
esse tao breve mas envolto em tamanha eloquência que me derreti por completo.
Aproximei-me na tentativa de pegar nele, mas receoso logo se esgueirou para o
meio das silvas donde proviera, e já deitado na erva, bem protegido, o focinho
bem cosido contra o solo, ficou a mirar-me com aqueles olhos cor de leite. Desejoso
que ele se aproximasse recuei o bastante para que notasse não correr perigo
algum. Esta tática resultou porque aos poucos, patinha ante patinha, o dorso
encolhido, sempre prudente, foi-se aproximando. Persuadido que o tinha conquistado
voltei a abeirar-me dele, e de novo recuou. Difícil conquistá-lo.
Ah! Percebi o jogo! Eu
andava para a frente, ele andava para trás; eu recuava, ele avançava. Divertido
entrei no jogo, decidido, no entanto, a ganhar a parada. Aos poucos fui
reparando, contudo, que já não fugia de mim com a impetuosidade inicial. Agora
esquivava-se mais devagar, quase me desafiando a agarrá-lo para a seguir se
escapulir de novo. Estava a gostar da brincadeira, eu também.
Analisei-o. Era todo negro, mas curioso! a
parte inferior das patas da frente eram brancas, como que se alguém as tivesse
pintado dessa cor por diversão. Um par de luvas original e encantador. A idade?
Calculei a roçar os dois meses, os máximos dois meses e meio, resultado da
experiência colhida na última ninhada da minha cadela Kamie. De repente
ocorreu-me: onde estava a sua família? Onde andaria a mãe? Procurei no local e
entre o silvado mas não encontrei ninguém. O meu amiguinho estava abandonado e
só no mundo!
Compadecido e determinado a
levá-lo comigo mudei a estratégia do jogo: sentei-me no chão alheado por
completo da sua presença, mas olhando sempre de soslaio para ver a sua reação.
No princípio pareceu estranhar, como que amuado com o final tão rápido da
brincadeira, mas ao ver-me imóvel e sem sequer prestar-lhe a mínima atenção,
perdeu o medo e muito sorrateira e vagarosamente, quase arrastando-se, foi-se
aproximando de mim. Eu mantinha-me quieto e calado, mas ao mesmo tempo ansioso
pelo desenlace e tao desejoso em afagá-lo nos meus braços. Pelo canto do olho vi
claramente que ele se sentou a meu lado, mas fiz de conta e continuei abstrato como
se não se passasse nada. Queria ganhar a sua confiança totalmente.
Depois, muito devagar,
instintivamente, a minha mão direita foi ao seu encontro e tocou no seu
focinho. Afaguei-o. Ele deixou e manteve-se sentado sem se esquivar ao meu
contacto. O primeiro round estava ganho. Depois, entre o acarinhar do focinho e
tê-lo no meu colo foram breves instantes. Pudera! Era isso mesmo o que
malandreco queria. Espertalhão! Ele era lindo, lindo de enfeitiçar, dono duma
ternura tão grande, e tanto me enfeitiçou que logo a seguir me levantei com ele
nos braços. Ele, feliz, abanava a cauda, com o focinho afundado no meu braço e
continuando a olhar para mim com aquele tal ar ternurento numa mistura de
súplica e gratidão.
Imaginei tivesse fome, mas
dar-lhe o quê? Não tinha nada comigo. De repente lembrei-me e, sem perda de
tempo, fui ao carro e com as mãos cortei um naco do bolo-rei que minha mãe me
incumbira de comprar. Ela me perdoaria por esfrangalhar o bolo, tinha a
certeza, como também tinha a certeza que bolo-rei não é petisco para um
cachorrinho de dois meses. Mas não seria melhor que nada? Só queria vê-lo
feliz! Esmigalhei o bolo o mais que pude e ele absorveu rapidamente todas as
migalhinhas depositadas na minha mão. Com a fome que tinha nem se queixou, e no
fim ficou com aquele ar de cachorrinho feliz a pedir por mais. Conhecem esse
ar?
Meu irmão já me tinha
avisado: na próxima ninhada da minha cadela pastor alemã um seria para o filho,
o Salvador, com 4 anos de idade irrequietos e reguilas, que toda vez que me via
perguntava: ó tio, então o meu cachorrinho? Peguei no meu amiguinho de quatro
patas e levei-o ao Silvério, meu amigo veterinário, para os cuidados primários
e aproveitei para comprar um saco de ração Puppy. A seguir fui à loja da D.
Etelvina, a florista da minha rua, pedir uma caixa e uma fita de embrulho vermelha,
fiz uns furos para ele poder respirar facilmente e coloquei-o lá dentro como um
belo presente. Quando entrei em casa e viram a caixa com o laço os meus
sobrinhos logo perceberam que era uma prenda e, claro, perguntaram o que tinha
dentro. Pisquei o olho ao meu irmão sempre receoso que o meu amiguinho se denunciasse.
Se o fizesse a surpresa iria por água abaixo! Mas não, ele portou-se
impecavelmente, mantendo-se quieto e caladinho. Minha mãe chamou para a mesa.
Ninguém se mexeu, nem mesmo os graúdos. Curiosos, todos queriam ver o que
estava dentro da caixa mágica. O Salvador, bruxinho, perguntou se a prenda era
para ele. Meu irmão, percebendo a cena, acenou-me que sim com a cabeça, e eu
então respondi ao meu sobrinho que sim. Eu próprio, deliciado com o êxtase
escrito nos olhos das crianças e dos adultos, comecei a puxar a fita. Então
misteriosamente da caixa, numa imitação barata do David Copperfield, saiu de
orelhas caídas e assustadito, o meu amiguinho dos olhos mais doces do mundo.
Que Natal aquele! Foi uma
algazarra dos diabos! O Salvador de imediato batizou o seu amiguito de “Negro”.
Entendia-se porquê, tudo simples e espontâneo como só as crianças sabem! A casa,
essa, virou do avesso com tamanha agitação. Claro que nessa noite a miudagem mal
comeu e deitou-se tarde, disputando entre si o seu quinhão de brincar com o
cachorrinho. Mas até os crescidos, não pensem que foi só a pequenada que queria
pegar nele, não! Porque se enganam. Todos se derreteram com o cãozinho! E como
resistir? Eu sorria, feliz e emocionado!
Aquele foi um Natal
verdadeiramente inesquecível. E na hora de pôr na mesa o bolo-rei minha mãe
olhou para mim e sorriu. Faltava lá um bom naco…
P. Coura, 17/12/2015
2015/12/18
Histórias da Guerra Colonial - O Alferes por Alfredo Maioto
´
Esperou pacientemente
que formassem um círculo e depois ficou a olhar para cada um como se fosse a
última vez. Sem saber com exatidão donde provinha essa ideia, mau presságio
apenas, algo dentro dele o advertia do perigo de que algum dos trinta elementos
do seu pelotão não regressasse vivo ao quartel. Porque a missão que tinham em
mãos era perigosa, tinha consciência disso, e precisava colocar os seus
subordinados a par das dificuldades que iriam enfrentar. Era seu dever.
Lentamente passou a vista por cada
soldado querendo com esse gesto, porventura, fixar o nome e o rosto bem no
fundo da sua memória. Eram os soldados do seu pelotão que com ele tinham
palmilhado aventuras várias e pisado juntos muito mato. Desta vez ele próprio,
e não os furriéis, como era habitual, se incumbiu de passar revista para ter a
certeza de que os subordinados estavam apetrechados da ração de combate para 3
dias, das cartucheiras, e ainda dos 2 cantis de água. Tudo em ordem. Terminada a inspeção explicou então os objetivo que tinham em mãos. Os soldados ouviram atentamente e baixaram os olhos, apreensivos. A uma ordem sua todos, em simultâneo e sem proferir palavra, introduziram a bala na câmara. E o barulho frio da culatra a ser puxada atrás perturbou a manhã…
Todos sabiam que os turras andavam pelos aldeamentos em ação psicológica. A confirmar esse boato o régulo da aldeia Takinde tinha vindo ao quartel relatar que eles dormiam lá todas as noites em busca de provisões. A missão do 1º pelotão consistia, assim, em ir a Takinde e abater os inimigos.
Era véspera de Natal. Naquela manhã do dia 23 Dezembro, ainda com o sol estremunhado, já o 1º Pelotão saia do quartel em duas filas, metade dos homens no lado direito da picada e a outra metade no lado esquerdo, distanciados alguns metros uns dos outros. Caminhavam em silêncio, cabisbaixos, interrompido, aqui e ali, por algum pássaro madrugador. Era o silêncio macabro do perigo pairando no ar…
O sol começava a espreitar, ameaçador. Depressa entraram na picada da Mosca do Sono, assim chamada porque em tempos existiu ali um posto de vacinação dos aldeões contra essa praga. As casas ainda se mantinham de pé, mas completamente abandonadas e envoltas em ervas. Como a picada era estreita todo o pelotão seguia em fila indiana.
Takinde ficava, segundo o mapa, a cerca de 40 kilometros. Horas de caminho e muito suor também. O plano consistia em chegar ao destino ao final da tarde. Depois, ao amanhecer, seria o ataque-surpresa.
O calor era sufocante. Chegaram a Takinde por volta das cinco horas da tarde, camuflando-se de imediato entre os grandes arbustos e a imensa penedia existente na zona e posicionando-se num local proeminente a fim de poder controlar as entradas e saídas da povoação. Lá mais em baixo, a cerca de cem metros, Takinde permanecia silenciosa quase adormecida. Por gestos o comandante de pelotão transmitiu que iriam passar ali a noite à espera, e pediu que se espalhassem o mais possível pelo terreno. Takinde era uma pequena povoação composta por cerca de trinta palhotas apenas e quase todas elas encostadas umas às outras. Uma, por ser maior, diferenciava-se das demais, certamente a do régulo. O controle não seria difícil, mas a espera, essa, iria ser longa e penosa.
Com seu canto os pássaros começavam a sacudir a noite numa sinfonia estridente. Depois, por fim, a escuridão chegou. Espantosamente, porém, na aldeia nem uma só fogueira se acendeu. O alferes achou estranho e começou a ficar preocupado. Teriam os turras sabido da vinda, ou até os próprios aldeões, e ter-se-iam refugiado no mato para evitar confrontos com a tropa?
Ternamente refulgiam as estrelas e soprava um vento manso. Para o alferes, contudo, a noite estava escuríssima e triste. Como sua alma. Porque lá longe, no “Puto” distante, tinha a noiva à espera numa aldeia sossegada lá para a zona de Fundão. Ao lembrar-se dela involuntariamente estremeceu. Que estaria ela a fazer naquele exato momento em que o seu pelotão, escondido entre os arbustos, num pedaço qualquer da selva, vigiava uma aldeia onde os turras iam abastecer-se? Na escuridão o rosto dela brilhava mais intensamente que as próprias estrelas. O alferes olhou o firmamento esperançado em vê-la a luzir entre tantas estrelas cintilantes… Todos os dias ele escrevia-lhe um aerograma, mas naquela véspera de Natal não iria fazê-lo. E este pensamento caiu mais fundo… Para ele a guerra era um monstro impiedoso e disforme. Ao olhar para si mesmo apercebia-se bem da desumanidade aprendida nos dezoito meses de luta. Tinha mudado muito. Embrutecera, era o termo. Como todos, consequências da dureza do dia-a-dia.
Logo ao lusco-fusco do amanhecer todo o pelotão se pôs em movimento. Lá em baixo, na aldeia, uma quietude de suspeitar. O alferes distribuiu seus homens em três secções: duas a cargo dos furriéis e a outra comandada por ele mesmo. Em minutos toda a povoação ficou cercada. Contudo, estava deserta! Nem um simples cão por lá andava. Embora desconfiado o alferes respirou de alívio. Assim não teria necessidade de lutar. Sorriu. E, num gesto instintivo, num daqueles momentos malucos mas inexplicáveis da guerra, o alferes mandou formar o pelotão no centro da aldeia. Os soldados estranharam, mas obedeceram rindo divertidos. Depois, mais estranho ainda, obedeceram à voz de comando e ficaram em sentido. Então a seguir o alferes Martins, os olhos brilhantes e a emoção sacudindo a alma, no corpo dançando uma alegria estranha, disse:
- Tenho muito orgulho em vocês, 1º pelotão. - A voz tremeu, mas depressa se recompôs. E sem perder o fôlego, quase num grito a servir de desafio aos turras, erguendo os braços aos céus e o som da sua voz atroando mato fora: - Feliz Natal, malta!
P. Coura, 15/12/2015
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