2016/05/09

Festival das Sopas / 2016


Festival das Sopas / 2016
Organização da Associação Humanitário de Bombeiros Voluntários de Colares

No sábado, dia 30 de Abril de 2016 a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Colares realizou o 5º Festival das Sopas.
O festival teve início por volta das 19h30m, na parada do parque inferior e salão festas, contou com cerca de 650 pessoas, número que segundo a organização “tem vindo a aumentar de ano para ano.”
Cafés, restaurantes, pastelarias, talhos, padarias e mercearias da zona, juntamente com a Junta de freguesia de Colares, a Funerária São João das Lampas e alguns particulares deram uma ajuda preciosa ao contribuírem com os seus donativos alimentares e/ou monetários.
O Conjunto Trio Maravilha fez as delícias de quem por lá passou e quis dar um pezinho de dança.
“Os momentos que antecederam ao festival foram de grande ansiedade, pois existe sempre receio de que falte algum pormenor”, afirmou a organização.
O empenho, o espirito de equipa e a entre ajuda de um grupo de senhoras e bombeiros que em conjunto trabalharam na montagem do espaço e na recolha das sopas foi fundamental para que o 5º Festival das Sopas corresse da melhor forma.

A todos que tornaram possível a realização deste evento

                                     Bem Hajam - Bombeiros Voluntário de Colares
 
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2016/04/07

Mulheres-Silêmcio


MULHERES-SILÊNCIO

Meu nome é Joana Santos, um nome tão vulgar entre tantos outros que vivem ou viveram a mesma experiência que eu. Não há histórias únicas, há histórias que às vezes parecem prolongamento da nossa própria vida tão grande é a coincidência de palavras e de dores. Vou contar as minhas.

               Por onde começar? As palavras há muitos anos que se resignaram e a coragem gastou-se na paciência com que fui preenchendo meu destino.

               Meu marido chama-se João Serpa, tem 68 anos de idade e esteve quase dois anos na Guiné a cumprir a sua comissão como soldado integrado numa Companhia de Caçadores. Ele é, por conseguinte, um das centenas de milhares de militares enviados para o Ultramar e rotulados de ex-combatentes, um rótulo que define uma geração inteira. Ex-combatente é um símbolo de abandono, de esquecimento, exatamente aquilo que a Pátria fez e faz a todos quantos foram empurrados para África para defender as nossas ex-colónias.

                     Meu marido chegou da Guiné são e salvo, graças a Deus, mas nosso drama, contudo, começou certa manhã quando, ao acordar, se queixou de fortes dores de cabeça. Levantou-se com esforço, vacilante, e dirigimo-nos de seguida ao hospital de Viseu. Pensava eu, naquele instante, que seria problema de visão, e daí ter marcado consulta para oftalmologia. No final da consulta o médico mandou sair meu marido e pediu para eu ficar para me dizer em surdina: o seu marido precisa de psiquiatra! Segui a instrução e fomos ao psiquiatra – e desde esse dia nunca mais paramos! O médico disse que aquilo era esgotamento. Pior que isso: stress de guerra. Naquela altura, porém, pouco ou nada se sabia o que isso representava. Ninguém me dizia, ou não queria dizer, o que realmente era isso. Tivemos de ir vivendo com o problema como podíamos, tendo como lenitivo possível os comprimidos receitados que nós seguíamos à risca.

                      A partir desse dia, então com 32 anos, casados há quatro anos apenas, meu marido ingeria vários comprimidos por dia na tentativa de debelar o mal: uns eram para o deixar calmo, outros para o deixarem dormir. De homem calmo e jovial que era, e com o passar do tempo e o avanço da doença, começou a ser impaciente e as vezes agressivo portando-se duma forma nunca imaginada. Era um homem muito diferente do que eu conhecera e que me atraíra ao ponto de casar com ele. Como é natural foi piorando ano após ano. Dormia muito mal. Havia noites que se levantava aos berros imitando o som das metralhadoras como se estivesse debaixo de fogo. Resmungava por tudo e por nada, intolerante para mim e até para o Rui Miguel, nosso único filho, tornando a vida difícil lá em casa. Não podíamos bater portas, o barulho incomodava-o tremendamente, e não se podia ouvir a música num volume elevado – porque tudo isto o irritava. Sentava-se na cadeira, meio apático e olhar mortiço, à espera que o tempo rolasse, como se o instante de agora fosse repetitivamente o mesmo de amanhã! Como tinha mudado! Aquele não era o meu marido! Quantas lágrimas não chorei no meu silêncio!

               Fui obrigada a deixar meu emprego de educadora infantil para vir para casa ocupar-me totalmente dele. No seu vigésimo aniversário o Rui Miguel chegou a casa por volta das duas da manhã. O pai dormia. Apesar de todos os cuidados, sabendo sobejamente que não podia fazer barulho, de repente a porta bateu e o estrondo ecoou pela casa. Foi o suficiente. Sobressaltado, de repente, e em pleno silêncio da noite, o meu João levantou-se a gritar “os turras vêm aí” vezes sem conta. Quando chegámos à beira dele tinha a cabeça escondida debaixo dos Lençóis e o corpo todo enrolado como que a proteger-se do ataque. Meu filho e eu tentámos acalmá-lo, mas em vão. Então o Rui Miguel fez-me sinal com a cabeça para eu sair e ainda tive tempo para o ver deitar-se ao lado do pai em silêncio e abraçando-o forte num gesto protetor. E ali ficou sem tempo na noite, simplesmente acalmando o pai através do seu abraço carinhoso! Cá de fora ouvi seu soluçar a misturar-se com os gritos do pai cada vez menores até se calarem de vez… O amor sobrepusera-se ao drama mental.  

                    Não saímos de casa porque o João não tolera o ruido dos carros. Deixamos de almoçar fora de casa. Ao mínimo som que se aproxime de rajada, ou mesmo quando, sem querer, algum filme que passe na televisão e que envolva tiros, ele deita-se imediatamente no chão e diz sempre a mesma coisa: protejam-se! Os turras vêm aí!

                 Há quase de 30 anos que vivo isto. Se precisa de ir ao médico, incapaz de se deslocar sozinho, tenho de ser eu a acompanhá-lo; para tomar os comprimidos sou eu quem os dá e diz quais. Ele não consegue viver sem mim qual criança a quem temos de dizer faz isto ou faz aquilo. E eu, incapaz de deixá-lo, fiel à promessa de honrá-lo até ao fim como jurado no dia do casamento, tornei-me o seu anjo da guarda para tudo. E vou honrá-lo até ao fim!

                   Todavia, às vezes assume por momentos quase a normalidade e tem gestos surpreendentes. Na semana passada, por exemplo, colocou debaixo do travesseiro um pequeno bilhete rabiscado com letra irregular em que docemente escrevinhou: tu és o anjo da minha vida! Meigo como noutros tempos… Recuperação momentânea do homem bom que ele era e que a guerra tinha destruído!

                    Outras vezes, simplesmente, aperta a minha mão e fica a olhar para mim com aqueles olhos grandes de menino mimado sem proferir uma só palavra. Eu entendo o que ele quer dizer, e aperto a sua sorrio e aconchego-o a mim. E mais que uma vez vi-lhe os olhos húmidos… Nesses instantes de semi-consciência dou-me conta que ele tem noção do seu estado doentio!               

                 Dentro de mim, contudo, sempre uma dor disforme e infinda. Meu destino é este, então só me resta levar tudo até ao fim com conformismo e coragem. E muitas lágrimas à mistura…

Alfredo Maioto
P. Coura, 01/03/2016

PS :  DEDICADO A TODAS AS MULHERES-SILÊNCIO DESTE PAÍS!
                          
             

2016/03/03

DORES SEM NOME



Mais um excelente “Escrito” do meu Colega e Amigo A. Maioto.
Este trabalho é um exemplo daquilo que aconteceu a milhares de colegas nossos, durante o período da guerra colonial.

DORES SEM NOME
 
Em mim a noite mais escura de toda minha vida. Todo meu ser foi arrastado para uma escuridão de sombras sinistras como se alguém, maquiavelicamente pérfido, tivesse queimado todo meu corpo de luto. Atónito, perplexo, no meu triste enlouquecer as dores nem me permitiam sequer chorar, que seria um bálsamo, e os pensamentos, esses, ziguezagueavam no fundo do mundo que afinal era tão só a enormidade desfigurada da minha alma!

Maquinalmente deixei escorregar o corpo, pesado como uma Berliet, para o chão barrento e encostei-me ao embondeiro enorme, de ramos fortes e tronco corpulento, alargando a vista pelo acaso onde o sol se desvanecia a cada segundo…

                      Então tu chegaste. Silencioso, sem proferir uma letra sequer ao ver-me assim prostrado, e sentaste-te a meu lado, ficando depois mudo a observar o por do sol por cima das copas das árvores. Para nós, naquela tarde qualquer dum dia sem nome, naqueles instantes o tempo não existia, e se existisse nós éramos os senhores absolutos para podermos destrui-lo ou compô-lo a nosso bel-prazer. A dor dilacerava-me as entranhas…

                         Sem te olhar estendi-te o aerograma que segurava nas mãos, e pelo canto do olho acompanhei sem querer, desinteressadamente, o teu gesto em abri-lo com calma já prevendo o pior e depois a leitura. Leste-o duas vezes. Depois, com a mesma calma com que o abriste, fechaste-o com um carinho comovente como se duma relíquia se tratasse, pousando-o depois na mão que eu estendi.

                        Nada disseste. Nem uma letra sequer, nem um som! O sol já se tinha ido embora deixando em sua substituição os primeiros tons da noite. Pareceu-me, na solidão do tempo em que mergulhei, que minhas dores nunca mais iriam sarar, e a cada segundo que passava elas aumentavam de tamanho. E uma lágrima, e várias, e muitas, sustidas até aí a tanto custo, finalmente irromperam de meus olhos molhando a camisa do camuflado que envergava. E chorei como nunca tinha chorado, o corpo tremente e a alma incapaz de aguentar o sofrimento. Foi então que, num segundo de lucidez, ouvi teu choro. Tu choravas comigo. Tu, meu amigo Carlos, também choravas minhas dores!

                      Pareceu-me que, aniquilado pelo desgosto, o tempo passou por nós velozmente, e que tempos sem rosto tinham passado desde que Caíra a primeira lágrima. Trazida pela brisa, melifluamente, qual nota tirada dum violino, no lusco-fusco da noite tu simplesmente disseste quase em segredo:

                - Sei o que é isso. Também perdi o meu dois meses antes do embarque.

            No aldeamento, sentados junto às palhotas, os aldeãos, arrancados de suas terras e centralizados na aldeia para maior controle dos movimentos dos turras, ocupavam-se do jantar, enquanto a noite ia escurando cada vez mais. E num sopro de novo tu: 

             - Como lamento perderes teu pai! Não sei que dizer! Não sei…

           Acreditei em ti, tinha a certeza absoluta que se tivesses esse poder nas mãos o usavas para curar minha tristeza! Deste uma palmada suave no meu braço, de seguida levantaste-te e estendeste a mão para me ajudar a erguer. E, quando eu já estava de pé, olhaste para mim e de repente, num gesto espontâneo, estreitaste-me nos braços dum jeito que nunca ninguém me tinha abraçado, naquela linha tão ténue onde se escreve a amizade e se sente a fraternidade. Começaste a caminhar e eu, sem me dar conta, segui-te, e teus passos conduziram-nos até à cantina do indiano Shami situada ali a uns duzentos metros.

                Depois o tempo deixou de existir entre as palavras e as estrelas refulgentes. Na noite e no calor da cerveja, entre lágrimas e o cheiro do capim, despejei toda minha dor. Falei de meu pai e das memórias que guardava dele, falei do homem simples e bom que ele era, evoquei seu nome e seu humor. Soltei a alma e as recordações!

 E tu, meu amigo, ouviste, ouviste atentamente com os olhos indesmentivelmente molhados de quem tinha chorado. Ambos sabíamos bem na pele a perda dum pai! Falámos de muita coisa menos da guerra que éramos obrigados a viver todos os dias. Sobre a nossa guerra nem uma palavra como se ela nem fizesse parte de nossas vidas.

          Naquela noite qualquer dum tempo qualquer, eu aprendi contigo o significado da verdadeira amizade e a sabedoria de saber ouvir!

         Naquela noite, na cantina descaiada do indiano Shami, tu foste meu irmão!
 
Alfredo Maioto
P. Coura, 26/01/2015
       
          

2016/02/01

Moto Clube do Mucifal

Foi num ambiente festivo de grande convívio e camaradagem que o Moto Clube do Mucifal assinalou no passado sábado dia 30, na União Mucifalense, o seu 17.º aniversário.
Numa festa que foi aberta a toda a comunidade Motar e não só, houve animação musical a cargo do Grupo Musical Ténis Bar.


2016/01/29

Visita da Imagem Peregrina

Colares recebeu hoje pelas 12h15, a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima às Dioceses Portuguesas.

Fernando Pessoa na Tuna E.U.Penedense

A Eclipse Arte irá apresentar na Tuna Euterpe União Penedense "O Segundo Raio de Luz de Luar" às 21h30 do dia 30 de Janeiro de 2016.
Espetáculo sobre a vida e obra de Fernando Pessoa 

2016/01/27

Associação de Reformados do Mucifal



Associação de Reformados do Mucifal
No passado sábado, dia 23, a Associação de Reformados do Mucifal 
comemorou o seu 15º aniversário.
Na sua intervenção a Presidente referiu que têm sido quinze anos de 
luta, de incertezas, incompreensões,
de dias maus, mas também de dias muito bons.
Tal como o passado sábado, em que com casa cheia de associados e 
amigos, e com a presença dos Vereadores da C.M.Sintra Drs. Eduardo 
Quinta Nova e Marco Almeida, do Presidente da Junta de Freguesia de 
Colares e representantes das instituições amigam, Banda dos Bombeiros 
V. Colares, Bombeiros V. Colares, Núcleo Sportinguista de Almoçageme, 
Sport União Colarense e União Mucifalense, deram o seu abraço amigo 
àquela Associação.
A Direcção apesar das adversidades, continua a dar o seu melhor para 
poder levar por diante os objectivos traçados ao longo destes quinze 
anos.
O Grupo Coral fez uma brilhante actuação cantando temas bem conhecidos 
dos presentes, sob a regência do maestro Paulo Taful e os músicos Hugo 
Janota e Graça Pedroso.
Mas os quinze anos que agora se cumprem ficaram enriquecidos neste 
dia, ao ser evocado numa singela e comovida homenagem póstuma, o 
associado nº 66, Raúl Serôdio Martins.
Com a colaboração do Grupo Coral da Associação, da filha, neta e 
primos cantando temas a que o homenageado deu voz, em peças de teatro 
que alcançaram muito êxito e lhe valeram o reconhecimento do Festival 
de Teatro da C.M.Sintra, como Melhor Actor, a festa continuou com 
leituras de excertos de algumas peças por ele desempenhadas. Foi feita 
uma evocação do seu percurso familiar, associativo, musical e teatral, 
pelo amigo de longa data e homem de teatro Fernando Louro...
Foram projectadas inúmeras fotografias do Raúl nas diversas 
actividades em que colaborou ao longo da sua vida.
Por fim, um animado lanche e os tradicionais "parabéns", cantados a 
muitas vozes.

2016/01/25

B.V. Almoçageme - Andebol

 
 
Realizou-se ontem Domingo no pavilhão dos B.V. Almoçageme, mais uma jornada a contar para o Campeonato Nacional de Andebol na categoria de Iniciados.
A nossa equipa (BVA) recebeu o Passos Manuel, equipa mais equilibrada e mais experiente, que a tornou numa equipa teoricamente superior. Apesar dessa superioridade a nossa equipa nunca baixou os braços e lutou de igual com o Passos Manuel, nunca voltando a cara ao adversário.
Em muitos lances já se nota o excelente trabalho que o treinador Tiago Rego tem vindo a desenvolver com os nossos jovens.
Este jogo teve algumas curiosidades:
Alexandre Grilo, Pedro Ferreira e Diogo Relvas, estrearam-se a marcar pelos BVA com um 1 cada. Miguel Pimenta bateu o seu record pessoal com 6 golos. Marcaram ainda para os BVA José Santos 14 golos e Francisco Santos 4 golos.
 

ELEIÇÕES PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

ELEIÇÕES PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
RESULTADOS
 
 

2016/01/22

Sport União Colarense

Integrado nas comemorações do 83º Aniversario o Sport União Colarense vai promover um concerto no dia 23 de Janeiro pelas 21h30.
O concerto terá lugar na sede do Colarense e será dirigido pelo Maestro Fernando Moreira.
 
 
 

2016/01/07

S.R.M. Almoçageme/124º Aniversário


 A Sociedade Recreativa Musical de Almoçageme completou no passado dia 1 o seu 124º aniversário. Para assinalar a data a prestigiosa instituição, organizou um excelente concerto protagonizado pela Banda da SRMA, regida pelo Maestro Fortunato Panta Nunes.

 

 

2015/12/21

UM BELO PRESENTE DE NATAL / POR ALFREDO MAIOTO



UM BELO PRESENTE DE NATAL.
De repente, saído do meio do silvado, apareceu à minha frente. Ao ver-me assustou-se e ficou a olhar para mim debatendo-se na angústia entre o fugir ou ficar. E então, magicamente, vi aqueles dois olhitos mais belos e doces que jamais irei esquecer! Que doces e suplicantes, meu Deus! Como nunca vi!
                 Olhámo-nos por segundos, tempo esse tao breve mas envolto em tamanha eloquência que me derreti por completo. Aproximei-me na tentativa de pegar nele, mas receoso logo se esgueirou para o meio das silvas donde proviera, e já deitado na erva, bem protegido, o focinho bem cosido contra o solo, ficou a mirar-me com aqueles olhos cor de leite. Desejoso que ele se aproximasse recuei o bastante para que notasse não correr perigo algum. Esta tática resultou porque aos poucos, patinha ante patinha, o dorso encolhido, sempre prudente, foi-se aproximando. Persuadido que o tinha conquistado voltei a abeirar-me dele, e de novo recuou. Difícil conquistá-lo.
                   Ah! Percebi o jogo! Eu andava para a frente, ele andava para trás; eu recuava, ele avançava. Divertido entrei no jogo, decidido, no entanto, a ganhar a parada. Aos poucos fui reparando, contudo, que já não fugia de mim com a impetuosidade inicial. Agora esquivava-se mais devagar, quase me desafiando a agarrá-lo para a seguir se escapulir de novo. Estava a gostar da brincadeira, eu também.
                   Analisei-o. Era todo negro, mas curioso! a parte inferior das patas da frente eram brancas, como que se alguém as tivesse pintado dessa cor por diversão. Um par de luvas original e encantador. A idade? Calculei a roçar os dois meses, os máximos dois meses e meio, resultado da experiência colhida na última ninhada da minha cadela Kamie. De repente ocorreu-me: onde estava a sua família? Onde andaria a mãe? Procurei no local e entre o silvado mas não encontrei ninguém. O meu amiguinho estava abandonado e só no mundo!
                   Compadecido e determinado a levá-lo comigo mudei a estratégia do jogo: sentei-me no chão alheado por completo da sua presença, mas olhando sempre de soslaio para ver a sua reação. No princípio pareceu estranhar, como que amuado com o final tão rápido da brincadeira, mas ao ver-me imóvel e sem sequer prestar-lhe a mínima atenção, perdeu o medo e muito sorrateira e vagarosamente, quase arrastando-se, foi-se aproximando de mim. Eu mantinha-me quieto e calado, mas ao mesmo tempo ansioso pelo desenlace e tao desejoso em afagá-lo nos meus braços. Pelo canto do olho vi claramente que ele se sentou a meu lado, mas fiz de conta e continuei abstrato como se não se passasse nada. Queria ganhar a sua confiança totalmente.
                     Depois, muito devagar, instintivamente, a minha mão direita foi ao seu encontro e tocou no seu focinho. Afaguei-o. Ele deixou e manteve-se sentado sem se esquivar ao meu contacto. O primeiro round estava ganho. Depois, entre o acarinhar do focinho e tê-lo no meu colo foram breves instantes. Pudera! Era isso mesmo o que malandreco queria. Espertalhão! Ele era lindo, lindo de enfeitiçar, dono duma ternura tão grande, e tanto me enfeitiçou que logo a seguir me levantei com ele nos braços. Ele, feliz, abanava a cauda, com o focinho afundado no meu braço e continuando a olhar para mim com aquele tal ar ternurento numa mistura de súplica e gratidão.
                    Imaginei tivesse fome, mas dar-lhe o quê? Não tinha nada comigo. De repente lembrei-me e, sem perda de tempo, fui ao carro e com as mãos cortei um naco do bolo-rei que minha mãe me incumbira de comprar. Ela me perdoaria por esfrangalhar o bolo, tinha a certeza, como também tinha a certeza que bolo-rei não é petisco para um cachorrinho de dois meses. Mas não seria melhor que nada? Só queria vê-lo feliz! Esmigalhei o bolo o mais que pude e ele absorveu rapidamente todas as migalhinhas depositadas na minha mão. Com a fome que tinha nem se queixou, e no fim ficou com aquele ar de cachorrinho feliz a pedir por mais. Conhecem esse ar?
                    Meu irmão já me tinha avisado: na próxima ninhada da minha cadela pastor alemã um seria para o filho, o Salvador, com 4 anos de idade irrequietos e reguilas, que toda vez que me via perguntava: ó tio, então o meu cachorrinho? Peguei no meu amiguinho de quatro patas e levei-o ao Silvério, meu amigo veterinário, para os cuidados primários e aproveitei para comprar um saco de ração Puppy. A seguir fui à loja da D. Etelvina, a florista da minha rua, pedir uma caixa e uma fita de embrulho vermelha, fiz uns furos para ele poder respirar facilmente e coloquei-o lá dentro como um belo presente. Quando entrei em casa e viram a caixa com o laço os meus sobrinhos logo perceberam que era uma prenda e, claro, perguntaram o que tinha dentro. Pisquei o olho ao meu irmão sempre receoso que o meu amiguinho se denunciasse. Se o fizesse a surpresa iria por água abaixo! Mas não, ele portou-se impecavelmente, mantendo-se quieto e caladinho. Minha mãe chamou para a mesa. Ninguém se mexeu, nem mesmo os graúdos. Curiosos, todos queriam ver o que estava dentro da caixa mágica. O Salvador, bruxinho, perguntou se a prenda era para ele. Meu irmão, percebendo a cena, acenou-me que sim com a cabeça, e eu então respondi ao meu sobrinho que sim. Eu próprio, deliciado com o êxtase escrito nos olhos das crianças e dos adultos, comecei a puxar a fita. Então misteriosamente da caixa, numa imitação barata do David Copperfield, saiu de orelhas caídas e assustadito, o meu amiguinho dos olhos mais doces do mundo.
                   Que Natal aquele! Foi uma algazarra dos diabos! O Salvador de imediato batizou o seu amiguito de “Negro”. Entendia-se porquê, tudo simples e espontâneo como só as crianças sabem! A casa, essa, virou do avesso com tamanha agitação. Claro que nessa noite a miudagem mal comeu e deitou-se tarde, disputando entre si o seu quinhão de brincar com o cachorrinho. Mas até os crescidos, não pensem que foi só a pequenada que queria pegar nele, não! Porque se enganam. Todos se derreteram com o cãozinho! E como resistir? Eu sorria, feliz e emocionado!
                  Aquele foi um Natal verdadeiramente inesquecível. E na hora de pôr na mesa o bolo-rei minha mãe olhou para mim e sorriu. Faltava lá um bom naco…
P. Coura, 17/12/2015

Alfredo Maioto

                    

2015/12/18

Histórias da Guerra Colonial - O Alferes por Alfredo Maioto

´
DEDICADO AO JOSÉ MARQUES, FORÇA ATIVA NA SOLIDIFICAÇÃO DA FAMÍLIA 3352.

O ALFERES

Esperou pacientemente que formassem um círculo e depois ficou a olhar para cada um como se fosse a última vez. Sem saber com exatidão donde provinha essa ideia, mau presságio apenas, algo dentro dele o advertia do perigo de que algum dos trinta elementos do seu pelotão não regressasse vivo ao quartel. Porque a missão que tinham em mãos era perigosa, tinha consciência disso, e precisava colocar os seus subordinados a par das dificuldades que iriam enfrentar. Era seu dever.
            Lentamente passou a vista por cada soldado querendo com esse gesto, porventura, fixar o nome e o rosto bem no fundo da sua memória. Eram os soldados do seu pelotão que com ele tinham palmilhado aventuras várias e pisado juntos muito mato. Desta vez ele próprio, e não os furriéis, como era habitual, se incumbiu de passar revista para ter a certeza de que os subordinados estavam apetrechados da ração de combate para 3 dias, das cartucheiras, e ainda dos 2 cantis de água. Tudo em ordem.
                         Terminada a inspeção explicou então os objetivo que tinham em mãos. Os soldados ouviram atentamente e baixaram os olhos, apreensivos. A uma ordem sua todos, em simultâneo e sem proferir palavra, introduziram a bala na câmara. E o barulho frio da culatra a ser puxada atrás perturbou a manhã…
           Todos sabiam que os turras andavam pelos aldeamentos em ação psicológica. A confirmar esse boato o régulo da aldeia Takinde tinha vindo ao quartel relatar que eles dormiam lá todas as noites em busca de provisões. A missão do 1º pelotão consistia, assim, em ir a Takinde e abater os inimigos.
            Era véspera de Natal. Naquela manhã do dia 23 Dezembro, ainda com o sol estremunhado, já o 1º Pelotão saia do quartel em duas filas, metade dos homens no lado direito da picada e a outra metade no lado esquerdo, distanciados alguns metros uns dos outros. Caminhavam em silêncio, cabisbaixos, interrompido, aqui e ali, por algum pássaro madrugador. Era o silêncio macabro do perigo pairando no ar…
               O sol começava a espreitar, ameaçador. Depressa entraram na picada da Mosca do Sono, assim chamada porque em tempos existiu ali um posto de vacinação dos aldeões contra essa praga. As casas ainda se mantinham de pé, mas completamente abandonadas e envoltas em ervas. Como a picada era estreita todo o pelotão seguia em fila indiana.
         Takinde ficava, segundo o mapa, a cerca de 40 kilometros. Horas de caminho e muito suor também. O plano consistia em chegar ao destino ao final da tarde. Depois, ao amanhecer, seria o ataque-surpresa.       
                O calor era sufocante. Chegaram a Takinde por volta das cinco horas da tarde, camuflando-se de imediato entre os grandes arbustos e a imensa penedia existente na zona e posicionando-se num local proeminente a fim de poder controlar as entradas e saídas da povoação. Lá mais em baixo, a cerca de cem metros, Takinde permanecia silenciosa quase adormecida. Por gestos o comandante de pelotão transmitiu que iriam passar ali a noite à espera, e pediu que se espalhassem o mais possível pelo terreno. Takinde era uma pequena povoação composta por cerca de trinta palhotas apenas e quase todas elas encostadas umas às outras. Uma, por ser maior, diferenciava-se das demais, certamente a do régulo. O controle não seria difícil, mas a espera, essa, iria ser longa e penosa.
            Com seu canto os pássaros começavam a sacudir a noite numa sinfonia estridente. Depois, por fim, a escuridão chegou. Espantosamente, porém, na aldeia nem uma só fogueira se acendeu. O alferes achou estranho e começou a ficar preocupado. Teriam os turras sabido da vinda, ou até os próprios aldeões, e ter-se-iam refugiado no mato para evitar confrontos com a tropa?
            Ternamente refulgiam as estrelas e soprava um vento manso. Para o alferes, contudo, a noite estava escuríssima e triste. Como sua alma. Porque lá longe, no “Puto” distante, tinha a noiva à espera numa aldeia sossegada lá para a zona de Fundão. Ao lembrar-se dela involuntariamente estremeceu. Que estaria ela a fazer naquele exato momento em que o seu pelotão, escondido entre os arbustos, num pedaço qualquer da selva, vigiava uma aldeia onde os turras iam abastecer-se? Na escuridão o rosto dela brilhava mais intensamente que as próprias estrelas. O alferes olhou o firmamento esperançado em vê-la a luzir entre tantas estrelas cintilantes… Todos os dias ele escrevia-lhe um aerograma, mas naquela véspera de Natal não iria fazê-lo. E este pensamento caiu mais fundo… Para ele a guerra era um monstro impiedoso e disforme. Ao olhar para si mesmo apercebia-se bem da desumanidade aprendida nos dezoito meses de luta. Tinha mudado muito. Embrutecera, era o termo. Como todos, consequências da dureza do dia-a-dia.
           Logo ao lusco-fusco do amanhecer todo o pelotão se pôs em movimento. Lá em baixo, na aldeia, uma quietude de suspeitar. O alferes distribuiu seus homens em três secções: duas a cargo dos furriéis e a outra comandada por ele mesmo. Em minutos toda a povoação ficou cercada. Contudo, estava deserta! Nem um simples cão por lá andava. Embora desconfiado o alferes respirou de alívio. Assim não teria necessidade de lutar. Sorriu. E, num gesto instintivo, num daqueles momentos malucos mas inexplicáveis da guerra, o alferes mandou formar o pelotão no centro da aldeia. Os soldados estranharam, mas obedeceram rindo divertidos. Depois, mais estranho ainda, obedeceram à voz de comando e ficaram em sentido. Então a seguir o alferes Martins, os olhos brilhantes e a emoção sacudindo a alma, no corpo dançando uma alegria estranha, disse:
       - Tenho muito orgulho em vocês, 1º pelotão. - A voz tremeu, mas depressa se recompôs. E sem perder o fôlego, quase num grito a servir de desafio aos turras, erguendo os braços aos céus e o som da sua voz atroando mato fora: - Feliz Natal, malta!  

Alfredo Maioto 
P. Coura, 15/12/2015

2015/12/13

Memórias da Nossa Terra


Em 13 de Dezembro de 1959 o nº 1.345 do Jornal de Sintra publicava o seguinte da nossa terra


COLARES
 
DR. JOÃO BRANCO GUERREIRO
Julgamos interpretar o sentir de Colares em peso, ao virmos aqui congratular-nos com a eleição do Sr. Dr. João Branco Guerreiro para o cargo de vereador da Camara Municipal de Sintra.
Realmente, a acertada escoalha deixou a melhor impressão em toda a gente, pois o Sr. Dr. Guerreiro, que conhece profundamente a nossa região, que percorre diariamente no seu abnegado magistério, é um coração nobre e erudito investigador histórico, havendo tudo de bom a esperar da sua atuação.
Os nossos sinceros parabéns ao Sr. Dr. João Branco Guerreiro pela sua nomeação, à Camara de Sintra, que tão bem escolhe os seus colaboradores, e a Colares, em particular, por sair daqui alguém que já consideramos da nossa terra, para desempenhar tão honrosa missão.  
SPORT UNIÃO COLARENSE
Esta agremiação realizou no passado sábado, 5, um animado baile, cujo produto se destina à campanha de obras e foi abrilhantado pela Orquestra de Fernando Moreira. Foi anunciada a habitual festa do fim do ano entre os sócios do clube.
BANDA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS
Também na Sociedade da Banda se têm realizado alguns bailes e anuncia-se para sábado, 19, uma animada noite de festa com uma bela orquestra e os acordeonistas Gracinha e Guilherme Raposo.
AS RUAS DE COLARES
As ruas de Colares estão agora bem arranjadas, faltando porém metade da Calçadinha. Oxalá não demore esta reparação, pois está intransitável.
Repórter Colarense